Sem pódio, sem ranking: alguns destaques dos cinemas africanos em 2025

por Ana Camila Esteves

No apagar das luzes de 2025, decidi reunir uma lista de filmes africanos que mais me chamaram atenção ao longo do ano. Não se trata de um ranking ou de uma seleção dos “melhores”, mas de alguns destaques que me instigaram especialmente em termos de estética e narrativa durante o processo curatorial da Mostra de Cinemas Africanos. Alguns desses filmes tive a felicidade de trazer ao Brasil em 2025; outros certamente ainda chegarão em 2026. A proposta é oferecer um panorama de obras que se revelaram gratas surpresas ao longo do ano.

 

Minimals in a Titanic World (PT: Ínfimos em um Mundo Esmagador)

Direção: Philbert Aimé Mbabazi Sharangabo
País: Ruanda
Ano: 2025

Minimals in a Titanic World (2025), primeiro longa de Philbert Aimé Mbabazi Sharangabo, integra uma geração do cinema ruandês que vem chamando atenção em festivais internacionais por uma abordagem minimalista e intimista. O filme acompanha Anita, jovem que deixa a prisão e retorna ao apartamento onde vivia com Serge, apenas para descobrir que ele morreu. A partir dessa revelação, a narrativa se organiza em torno do luto compartilhado pela perda de um amor e de um amigo, construindo cenas ancoradas no cotidiano e nas formas singulares de atravessar a ausência. Com recursos modestos e grande liberdade formal, o filme afirma uma autoria sensível que transforma limites de produção em escolhas expressivas. Em um de seus momentos mais simbólicos, Anita diz ver um anjo da guarda — figura que reaparece como gesto de autofabulação e proteção e, segundo o diretor, como tentativa de reinscrever corpos negros no lugar da santidade. A música ocupa papel central nesse percurso, delineando os estágios do luto e apontando para um possível processo de cura. A cena final, de grande delicadeza, oferece um respiro e abre a possibilidade de recomeço. Exibido no Brasil na Mostra de Cinemas Africanos neste ano.

 

The Heart Is a Muscle (PT: O Coração é um Músculo)

Direção: Imran Hamdulay
País: África do Sul
Ano: 2025

Em The Heart Is a Muscle (2025), Imran Hamdulay constrói um drama tenso e físico que examina a paternidade em um contexto atravessado por culpa e violência estrutural na África do Sul contemporânea. A narrativa acompanha Ryan, um pai lançado ao desespero após o desaparecimento do filho durante uma festa de aniversário, processo que expõe, de forma gradual, o colapso de um corpo e de uma subjetividade. O filme observa como masculinidade, medo e heranças sociais se manifestam nos gestos mais cotidianos, evitando qualquer efeito espetacular. Após o curta The Wait, no qual já explorava conflitos íntimos a partir de situações ordinárias, Hamdulay amplia aqui sua ambição formal e dramática, realizando um primeiro longa sólido e sensível, que propõe um retrato complexo da masculinidade contemporânea sem recorrer a estereótipos. Na Mostra de Cinemas Africanos, exibimos o The Wait em 2024 e o The Heart is a Muscle neste ano.

 

Memory of Princess Mumbi (PT: Memória da Princesa Mumbi)

Direção: Damien Hauser
País: Quênia / Suíça / Arábia Saudita
Ano: 2025

Em Memory of Princess Mumbi (2025), Damien Hauser imagina um futuro africano a partir de uma escolha estética e política pouco comum: o uso da inteligência artificial para reconstruir visualmente reinos, paisagens e vestígios de um mundo pós-guerra. Ambientado em 2093, o filme acompanha Kuve, um cineasta que retorna a Umata para filmar a memória de um conflito recente e acaba envolvido na história da princesa Mumbi, cuja presença estrutura o enredo. Vindo do longa After the Long Rains, exibido na Mostra de Cinemas Africanos em 2024, o diretor retorna com uma obra construída a partir da inteligência artificial, recurso que amplia seu universo criativo diante de restrições orçamentárias. Memory of Princess Mumbi joga com essa ideia ao mesmo tempo em que a leva ao limite, resultando em um filme que cruza ficção científica, mockumentary, romance e comentário metacinematográfico. Há um compromisso radical com as imagens e com as possibilidades da narrativa, no qual se reconhecem traços estilísticos já presentes em trabalhos anteriores de Hauser. Um dos filmes africanos mais instigantes de 2025. No Brasil, foi exibido na Mostra de São Paulo.

 

My Father’s Shadow (PT: A Sombra do meu Pai)

Direção: Akinola Davies Jr.
País: Nigéria
Ano: 2025

Em My Father’s Shadow (2025), Akinola Davies Jr. constrói um retrato íntimo da paternidade atravessado pela história recente da Nigéria. Ambientado ao longo de um único dia, durante o conturbado período das eleições de 1993, o filme acompanha dois irmãos que passam horas decisivas ao lado do pai, em uma Lagos marcada por tensões políticas latentes. A narrativa se organiza a partir da experiência infantil, permitindo que a cidade, os silêncios e os pequenos gestos revelem a precariedade daquele momento histórico. O pai surge como uma presença complexa, marcada por limites e ausências, fazendo do filme uma reflexão delicada sobre memória, herança e aquilo que persiste — ou se transforma — na relação entre gerações.

O longa estreou em Cannes, marco importante por se tratar do primeiro filme nigeriano a integrar a competição do festival, ainda que seja uma produção majoritariamente britânica. Essa condição levou o filme a ser escolhido para representar o Reino Unido no Oscar, decisão que causa estranhamento diante do quanto a obra é profundamente enraizada na Nigéria em termos de enredo, espaço e imaginário. Sua estética dialoga mais diretamente com um cinema autoral realizado por cineastas nigerianos radicados no Reino Unido que filmam na Nigéria — como Babatunde Apalowo ou Olive Nwosu — do que com produções assinadas por realizadores residentes no país, como Ema Edosio ou Dika Ofoma. Essa camada de complexidade atravessa o filme e amplia sua potência. Sustentado por uma construção visual precisa e por cenas de forte carga emocional, My Father’s Shadow revela, com delicadeza e intensidade, o abismo que separa pai e filhos, afirmando-se como um dos destaques incontornáveis de 2025. No Brasil, foi exibido na Mostra de São Paulo.

 

Diya (The Price of Blood)

Direção: Achille Ronaimou
País: Chade
Ano: 2025

Em Diya (The Price of Blood) (2025), Achille Ronaimou constrói um thriller tenso e rigoroso a partir de um evento ao mesmo tempo banal e devastador: um atropelamento que resulta na morte de uma criança. A partir daí, o filme acompanha Dane, motorista de uma ONG em N’Djamena, lançado numa corrida contra o tempo ao ser submetido à diya, a dívida de sangue exigida pela família da vítima — uma soma impossível, cujo não pagamento implica prisão e o afastamento de uma vida familiar prestes a começar. O percurso do personagem transforma o espaço em extensão do impasse moral, enquanto a montagem e a progressão narrativa mantêm o espectador colado à urgência da escolha. Sem colocar seus personagens em oposições binárias nem transformar o conflito em alegoria abstrata, Diya observa como boa-fé, responsabilidade e afeto podem ser esmagados por sistemas de justiça que operam no limite entre tradição, coerção e sobrevivência. Para quem conhece pouco o cinema do Chade, a chegada de Achille Ronaimou aos holofotes dos grandes festivais internacionais é uma grata surpresa, e o filme não decepciona. Ainda inédito no Brasil.

 

The Fisherman (PT: O Pescador)

Direção: Zoey Martinson
País: Gana
Ano: 2025

Em The Fisherman (2025), Zoey Martinson constrói uma fábula costeira que combina tradição e modernidade com humor e uma sensibilidade quase mágica, transformando o cotidiano de pescadores ganeses em território de descoberta e adaptação. A narrativa acompanha o velho Atta Oko, cuja rotina à beira-mar é abalada por encontros improváveis — incluindo um peixe falante — e por uma expedição a Accra em busca de um sonho de autonomia e renovação. Ao entrelaçar a força simbólica de elementos folclóricos com a realidade concreta de comunidades afetadas por mudanças econômicas e ambientais, o filme equilibra peso social e leveza narrativa, permitindo que temas como identidade e sobrevivência ganhem corpo num ritmo que dialoga com a tradição oral e o humor popular. The Fisherman celebra a resiliência do espírito humano e a riqueza das histórias locais, lançando um olhar afetuoso sobre culturas em transição e seus modos de reinventar sentido e pertencimento. Deliberadamente caricato em diversos momentos e dialogando com influências do humor do cinema norte-americano — possivelmente relacionadas ao background da diretora —, o filme mantém um tom leve e envolvente, reforçado por uma fotografia que valoriza as belezas da costa de Gana. No Brasil, foi exibido na Mostra de São Paulo.

 

Les Invertueuses (PT: As Desvirtuosas)

Direção: Chloé Aïcha Boro
País: Burkina Faso
Ano: 2025

Em Les Invertueuses (2025), Chloé Aïcha Boro constrói um filme atento aos gestos de desvio e reinvenção feminina em um contexto social marcado por normas rígidas. A narrativa acompanha Natie, jovem que se move entre afetos e pactos silenciosos ao tentar aproximar dois amantes impedidos de viver sua relação, enquanto elabora para si mesma uma posição possível diante do desejo e da autonomia.

Vinda do documentário, com obras de forte impacto nacional e internacional centradas em questões sociais de Burkina Faso, Chloé Aïcha Boro estreia na ficção de forma instigante e corajosa. Isso se revela especialmente na construção da protagonista como uma jovem de traços andróginos, em claro conflito com sua identidade de gênero, e na delicadeza com que o filme aborda o amor entre pessoas idosas, fazendo desse vínculo o elo que une duas mulheres de gerações diferentes.

Uma das críticas dirigidas ao filme aponta a escolha de uma atriz jovem para interpretar a protagonista idosa — observação que, a meu ver, é irrelevante, pois não compromete a articulação entre intimidade e observação social que Les Invertueuses propõe a partir da conexão e da cumplicidade entre essas duas mulheres. No Brasil, foi exibido na Mostra de São Paulo.

 

Liti‑Liti (The Attachment)

Direção: Mamadou Khouma Gueye
País: Senegal
Ano: 2025

Em Liti-Liti (The Attachment) (2025), Mamadou Khouma Gueye constrói um documentário profundamente enraizado nos laços familiares e comunitários para refletir sobre pertencimento, deslocamento e permanência. O filme acompanha a mãe do realizador e os moradores de Guinaw Rails, bairro periférico de Dakar ameaçado por um grande projeto urbano que coloca em risco casas, memórias e formas de vida compartilhadas.

Em geral, a estratégia de narrar uma história de viés político a partir da experiência pessoal de alguém diretamente envolvido tende a produzir poucos deslocamentos, mas aqui o recurso se revela preciso ao evitar que o relato se reduza a uma reportagem, funcionando como porta de entrada para a intimidade do lugar. Quando esse fio condutor é o próprio diretor e sua família, o risco da repetição é evidente; ainda assim, Liti-Liti consegue construir uma narrativa que nos aproxima das complexidades das grandes cidades, criando um reconhecimento que atravessa diferentes contextos.

É nesse movimento que o cotidiano ganha densidade política, revelando como decisões institucionais incidem diretamente sobre corpos, afetos e rotinas. O título, que remete à ideia de apego, organiza o filme como um gesto de cuidado: filmar torna-se uma forma de permanecer junto, afirmar vínculos e resistir ao apagamento produzido pela lógica da expulsão e da reconfiguração urbana. Inédito no Brasil.